COMENTÁRIOS DOS LEITORES


Marcelo Pereira Rodrigues
Meu caro Marcelo! Gostei muito do livro Corda Sobre o Abismo. Denizard Dias, personagem que me fez refletir bastante sobre suas conversas, através de sonhos, com escritores ilustres. Como foi bonito o "encontro" dele com o Lima Barreto! Por causa disso, estou lendo, pela segunda vez, Triste Fim de Policarpo Quaresma. Se tivesse o privilégio de sonhar com esse excelente autor perguntaria a ele se é verdade que Ricardo Coração dos Outros é uma personagem de Catulo da Paixão Cearense. Valeu, Marcelo! O livro faz a gente viajar, além de estimular a leitura e, no meu caso, a releitura.

Jorge Tavares – Ouro Branco – MG.


Marcelo Pereira Rodrigues
Ser intelectual neste exato momento não é tarefa fácil. Na verdade exige até certo nível de heroísmo. As maiorias que denominam a si mesmas "opinião pública" caminham para deixar também a cargo da emoção o que precisaria de um toque de lógica, logo, ser intelectual exige musculatura extra para nadar contra a correnteza. Alguns intelectuais podem vir a aceitar o desafio e retirar-se para o alto da montanha a fim de ir ter com Zaratustra (personagem de Nietzsche). No entanto, ao regressarem podem deparar-se com a situação de terem se transformado em estrangeiros completos, pois o passo da mudança cultural é ditado por entidades que têm acesso irrestrito à "opinião pública", e está acelerado de tal modo que da adesão a este passo pode-se dizer "ame-o ou deixe-o". Assim faz Denizard Dias, personagem principal de Corda sobre o abismo. Ser um estrangeiro pode até ser divertido e reconfortante para alguns espíritos, mas pode desnortear outros de maneira a fazê-los meter bala em alguém por um simples dia de calor (como Mersault, personagem de Camus em O Estrangeiro). Por isso, alguns podem preferir a aposentadoria da massa encefálica. Àqueles que optam por tal aposentadoria apresenta-se um incentivo e sobra um prêmio: a transição será indolor e depois de terminada, eles serão finalmente reconhecidos como iguais, como irmãos. É necessário salientar que a natureza crítica de outrora não se dá por vencida, porém agora tem foco mais objetivo, mensurável, visível. Passa-se a julgar os irmãos por seu nível de diferença com o protagonista. Passa-se a julgar idiota não aqueles que pensam errado, mas aqueles que não pensam na condição de irmãos. E tem prosseguimento o círculo vicioso de massificação, produzindo “Cândidos” (alusão ao personagem voltairiano) contemporâneos a partir de uma matriz global. O intelectual derrotado (é revelador observar a queda de Denizard), no entanto poderá ainda olhar com superioridade para aqueles que antes eram seus pares, e com ar de vingança cumprida para a própria vida, afinal, ele sim, o ignorante, é feliz. É feliz porque ignora sua própria condição. E em sua última nesga de racionalidade conclui satisfeito que atingiu tal condição por seu próprio poder de escolha. E abandona raciocínios tão fúteis, pois já vai começar o jogo.

Felipe Martins Melo – Ouro Preto – MG.

Marcelo Pereira Rodrigues

Meu comentário sobre o livro Pimenta, Sal & Alho. É um livro quente com textos picantes. Quando li algumas passagens senti calores. Apesar de o autor afirmar que estas crônicas tiveram intuito de "irritar” numa passagem do prólogo, na minha visão do livro consegui colocar uma pitada de açúcar. Na minha visão, críticas são um apelo para mudanças! Lendo com mais profundidade me senti criticada, mas não ofendida e sim com vontade de mudar. Sair da mesmice confortável que nós mesmos nos colocamos. MPR, sei que você não gosta que confundam seus textos com autoajuda, não estou fazendo isso. Apenas expressando meus sentimentos em relação ao livro. Adorei Pimenta, sal & alho. Refleti sobre suas crônicas, concordei, discordei, enfim, me diverti de verdade! Na minha visão "Pimenta, sal & alho com uma pitada de açúcar." A vida fica mais gostosa. Um grande abraço para um dos meus autores favoritos.

Maria Helena - Conselheiro Lafaiete - MG.


Marcelo Pereira Rodrigues

Marcelo Pereira Rodrigues (MPR) publicou seu primeiro romance no ano de 2004. Em 2006, lançou Um café com Sartre, que trouxe personagens densas, exemplos vivos das questões existencialistas e filosóficas propostas pelo autor. A trajetória de Mateo, Sabina e David culmina em um desfecho surpreendente, mas que também levanta interessantes ideias sobre a relação de um escritor com sua obra, e a inserção necessária para que se criem personagens com vidas e personalidades únicas. Durante o enredo, a cidade de Belo Horizonte também atua como parte da trama, entrelaçando caminhos e conferindo verossimilhança à obra, assim como os trechos musicais citados no decorrer do livro. É justamente esse clima urbano, mas ao mesmo tempo íntimo, que dá tom para toda a história. Se o trio de protagonistas é tão intimamente identificável e pode refletir experiências dos próprios leitores, a ambientação do livro e o clima, verdadeiramente, de um café, dão mais um passo para aproximar o leitor do texto. Sete anos depois, MPR publica Corda Sobre o Abismo, desta vez usando a cidade de São Paulo como partitura para ditar o ritmo da narrativa. A possibilidade da leitura rápida nos envolve em uma constante onda de questionamentos, que podem ser aprofundados introspectivamente, e cria um espelho entre os acontecimentos e reviravoltas na vida de Denizard, e os seus mais íntimos preconceitos e ideias. O tom crítico é constante, e aqui, podemos convergir as análises de Um Café com Sartre e de Corda Sobre o Abismo, passando assim a avaliar a obra de MPR a partir dos traços que lhe são característicos. Se por um lado o leitor pode encarar os livros como uma narrativa, apenas - já que as obras são acessíveis - elas estariam assim, sendo subutilizadas. O leitor que traz para si próprio os questionamentos propostos nos livros pode exercer um catártico exercício de colocar-se à frente de um espelho, pensando sobre si mesmo, e sua relação com o mundo. Tanto Mateo quanto Denizard carregam certos (pré?) conceitos possivelmente condenáveis quanto ao mundo que os cerca, mas não é comum que nós também o façamos? A relação que temos com nossos ambientes, com nossas cidades e pessoas próximas não reflete bem nossos posicionamentos psicológicos e filosóficos? As tramas não culminam, então, na mensagem de que nossa maneira de encarar o mundo e nos relacionarmos com ele (existência), definem o nosso "ser" (essência)? Portanto, encontramo-nos, como seres e leitores, entre as linhas de uma introspecção filosófica, e uma caminhada dionisíaca pela vida.

Nathália Pereira